sexta-feira, 5 de abril de 2013

Canalhice pura - Por suposto desacato, BM para ônibus, agride e prende estudante

Felipe Prestes

Camisa rasgada, marca semelhante a de um forte arranhão no pescoço e um hematoma no braço direito. Eram 19h desta segunda-feira, 1º de abril, quando o estudante de Geografia da UFRGS Matheus Portella de Camargo, 22 anos, conversou com o Sul21. A história, que correra pelas redes sociais durante toda a tarde devido ao relato de uma amiga do jovem no Facebook, foi interpretada por muitos como uma brincadeira do Dia da Mentira. As marcas, no entanto, revelam que era verdade: a Brigada Militar parou um ônibus no meio da Avenida Osvaldo Aranha, agrediu e prendeu o estudante, alegando que ele teria xingado um policial.

De acordo com o relato de Matheus, ele e uma amiga pegaram a linha D43 por volta das 13h em frente ao Mercado Público para ir até o Campus do Vale, onde tinham aula. Ao entrarem no ônibus viram que uma equipe da Rede Record entrevistava uma pessoa, no que acreditaram ser um link ao vivo. O estudante de Geografia começou então a gritar críticas à imprensa, referindo-se aos protestos contra o aumento da passagem de ônibus, com frases como “a mídia mascara informação”.

Além da equipe da Record, dois policiais acompanhavam o trabalho da rede de televisão. “Um deles ficou anotando alguma coisa e outro falando no walkie talkie”, diz Matheus. Quando o ônibus arrancou, ele voltou a gritar contra a imprensa e um policial teria se aproximado do veículo, o que o teria motivado a gritar que “a polícia protege o capital privado”.

A versão do policial é diferente: ele teria sido chamado de “filho da puta”, segundo afirmou ao jovem ao prendê-lo. Pelo xingamento, acionou outros colegas e, quando o ônibus passava pela Avenida Osvaldo Aranha, já quase no final do Parque Farroupilha, uma viatura fechou o veículo. Dois policiais entraram pela porta da frente e um pela de trás, todos de arma em punho, de acordo com Matheus.

Camisa rasgada e hematoma no braço, outras evidências da agressão que o estudante de Geografia diz ter sofrido | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O que entrou pela porta de trás foi o que teria sido xingado no Mercado Público. Quando reconheceu Matheus ele o agarrou pelo pescoço e disse: “Vem vagabundo, tá preso!”, conta o estudante. Em seguida, o brigadiano teria puxado o jovem pelo braço direito, o que seria a causa do hematoma e da camisa rasgada.

O policial também teria dado um tapa no rosto de Matheus, com força suficiente para derrubar seus óculos no chão, e um soco na boca do estômago. “Depois do soco, acabei urinando e até falei isto ao policial”, diz o estudante. O aviso não teria sido suficiente para as agressões pararem. “Ele apertou meu rosto com força contra o ônibus, disse que eu estava preso por desacato a autoridade e me algemou”.

O estudante de Geografia foi levado até o posto da Brigada Militar na Praça XV e, no caminho, diz ter ouvido ameaças e gracejos: “Disseram que se não existisse direitos humanos eu ia levar a maior tunda da minha vida e eu acredito que levaria mesmo”, diz.

Ficou cerca de uma hora e meia no posto da BM, sendo liberado por volta das 15h. No local, prestou depoimento e acusa o policial que ouviu seu depoimento de ter dito: “Fala o que tu quiser, se eu quiser eu te ferro mesmo”.

Após ser liberado, Matheus foi até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa relatar o ocorrido, acompanhado por dois advogados. Ele também prestou queixa no Palácio da Polícia e fez exame de lesões corporais no Departamento Médico Legal. Na manhã desta terça (2), ele também comunicou o fato à Corregedoria da Brigada Militar.

“Me lembrei do meu tio me contando sobre o DOPS”, diz Matheus sobre a abordagem sofrida. “Seria bem mais simples ele chegar para mim falando: ‘mãos na cabeça, você está detido por desacato a autoridade’. Não precisava nem ter encostado em mim”, opina.

Jovem mostra marca que as algemas teriam deixado; para advogado, uso de algemas desrespeitou o STF | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Matheus afirma ter sido agarrado pelo pescoço por policial | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Felipe Prestes

Camisa rasgada, marca semelhante a de um forte arranhão no pescoço e um hematoma no braço direito. Eram 19h desta segunda-feira, 1º de abril, quando o estudante de Geografia da UFRGS Matheus Portella de Camargo, 22 anos, conversou com o Sul21. A história, que correra pelas redes sociais durante toda a tarde devido ao relato de uma amiga do jovem no Facebook, foi interpretada por muitos como uma brincadeira do Dia da Mentira. As marcas, no entanto, revelam que era verdade: a Brigada Militar parou um ônibus no meio da Avenida Osvaldo Aranha, agrediu e prendeu o estudante, alegando que ele teria xingado um policial.

De acordo com o relato de Matheus, ele e uma amiga pegaram a linha D43 por volta das 13h em frente ao Mercado Público para ir até o Campus do Vale, onde tinham aula. Ao entrarem no ônibus viram que uma equipe da Rede Record entrevistava uma pessoa, no que acreditaram ser um link ao vivo. O estudante de Geografia começou então a gritar críticas à imprensa, referindo-se aos protestos contra o aumento da passagem de ônibus, com frases como “a mídia mascara informação”.

Além da equipe da Record, dois policiais acompanhavam o trabalho da rede de televisão. “Um deles ficou anotando alguma coisa e outro falando no walkie talkie”, diz Matheus. Quando o ônibus arrancou, ele voltou a gritar contra a imprensa e um policial teria se aproximado do veículo, o que o teria motivado a gritar que “a polícia protege o capital privado”.

A versão do policial é diferente: ele teria sido chamado de “filho da puta”, segundo afirmou ao jovem ao prendê-lo. Pelo xingamento, acionou outros colegas e, quando o ônibus passava pela Avenida Osvaldo Aranha, já quase no final do Parque Farroupilha, uma viatura fechou o veículo. Dois policiais entraram pela porta da frente e um pela de trás, todos de arma em punho, de acordo com Matheus.

Camisa rasgada e hematoma no braço, outras evidências da agressão que o estudante de Geografia diz ter sofrido | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O que entrou pela porta de trás foi o que teria sido xingado no Mercado Público. Quando reconheceu Matheus ele o agarrou pelo pescoço e disse: “Vem vagabundo, tá preso!”, conta o estudante. Em seguida, o brigadiano teria puxado o jovem pelo braço direito, o que seria a causa do hematoma e da camisa rasgada.

O policial também teria dado um tapa no rosto de Matheus, com força suficiente para derrubar seus óculos no chão, e um soco na boca do estômago. “Depois do soco, acabei urinando e até falei isto ao policial”, diz o estudante. O aviso não teria sido suficiente para as agressões pararem. “Ele apertou meu rosto com força contra o ônibus, disse que eu estava preso por desacato a autoridade e me algemou”.

O estudante de Geografia foi levado até o posto da Brigada Militar na Praça XV e, no caminho, diz ter ouvido ameaças e gracejos: “Disseram que se não existisse direitos humanos eu ia levar a maior tunda da minha vida e eu acredito que levaria mesmo”, diz.

Ficou cerca de uma hora e meia no posto da BM, sendo liberado por volta das 15h. No local, prestou depoimento e acusa o policial que ouviu seu depoimento de ter dito: “Fala o que tu quiser, se eu quiser eu te ferro mesmo”.

Após ser liberado, Matheus foi até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa relatar o ocorrido, acompanhado por dois advogados. Ele também prestou queixa no Palácio da Polícia e fez exame de lesões corporais no Departamento Médico Legal. Na manhã desta terça (2), ele também comunicou o fato à Corregedoria da Brigada Militar.

“Me lembrei do meu tio me contando sobre o DOPS”, diz Matheus sobre a abordagem sofrida. “Seria bem mais simples ele chegar para mim falando: ‘mãos na cabeça, você está detido por desacato a autoridade’. Não precisava nem ter encostado em mim”, opina.

Jovem mostra marca que as algemas teriam deixado; para advogado, uso de algemas desrespeitou o STF | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Comandante diz que nada aconteceu em seu batalhão, mas policiais confirmam a ocorrência

O Sul21 falou por duas vezes com o tenente-coronel Renato Maia, comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar, destacamento responsável pelo policiamento da área central de Porto Alegre, para ouvir o outro lado da história, mas ouviu que nada havia acontecido envolvendo o 9º BPM. A primeira ligação foi na noite de segunda (1). O comandante afirmou que a única informação que tinha recebido sobre o caso era o relato que um manifestante lhe fizera durante o protesto contra o aumento das passagens: disseram-lhe que uma prisão ocorrera em frente à PUCRS. Ele garantiu que não havia qualquer registro no 9º BPM sobre a ocorrência com Matheus. “Não tenho conhecimento, mas posso garantir que o 9º BPM não se envolveu em nenhuma ocorrência deste tipo”.

Na tarde desta terça (2), a reportagem voltou a telefonar para o tenente-coronel para ver se ele já tinha informações sobre o fato. Renato Maia voltou a dizer que não tinha nenhum registro do fato no 9º BPM. “Posso garantir que ninguém do 9º BPM fez isto”, voltou a dizer.

Entretanto, após esta declaração, o Sul21 foi até o posto da Brigada Militar na Praça XV para checar com policiais se a ocorrência era falsa ou não envolvia o 9º BPM, como afirma o comandante. Os profissionais que estavam no posto por volta das 17h30 desta terça — todos do 9º BPM — , confirmaram que houve a prisão em um ônibus na Osvaldo Aranha por desacato. E feita por um de seus colegas.

“A polícia continua com práticas da ditadura militar”, diz advogado

O advogado Samuel Sganzerla, que acompanhou o estudante de Geografia no Palácio da Polícia e na Assembleia Legislativa, ressalta que o fato de Matheus ter sido algemado desrespeita decisão do STF e que seu cliente foi humilhado. “O que impressiona no caso é que já há súmula vinculante do STF, que tem que ser utilizada por todas as autoridades públicas, dizendo que o uso de algemas é restrito a casos de resistência, fundado risco de fuga ou perigo à integridade física própria ou alheia. Além de sair algemado, o que lesionou os pulsos dele, foi agredido e humilhado na frente de outras pessoas”.

Para Sganzerla, a ocorrência remete aos anos da ditadura militar. “Isto é um absurdo em tempos em que estamos lendo e ouvindo sobre os 49 anos da ditadura militar. Isto já acabou há 28 anos e a polícia continua com práticas daquela época. Medidas cabíveis podem e devem ser tomadas pelas autoridades neste caso”, defende.

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