terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Brasil no ponto de vista europeu

Por Yahoo

O artigo de João Pereira Coutinho no jornal paulistano Folha de S. Paulo ("As democracias midiáticas", 25/09), expõe a difícil questão das visões internacionais na imprensa e o tema antiquíssimo da imagem do Brasil fora do Brasil. São assuntos delicados. O último é uma obsessão nacional. É conversa, entre nós, até de almoço de domingo. E costuma acabar em briga.

O Brasil mantém correspondentes na Europa, assim como há europeus escrevendo em jornais brasileiros sobre a vida e as crises europeias. Isso é sempre bom de ler, e vem aumentando. É útil, também. O leitor brasileiro interessado em visões contemporâneas sobre o Velho Continente pode recorrer aos artigos e matérias de Gilles Lapouge, Jamil Chade, Gustavo Chacra, Rodrigo Russo e alguns outros. Na mesma Folha de Coutinho, Clóvis Rossi visita esporadicamente os altos e baixos europeus. O Estado de S. Paulo traduz regularmente as reflexões de Paul Krugman sobre a crise financeira internacional, que o levam com frequência a opinar sobre a economia europeia e os "burocratas de Bruxelas". Há outros exemplos. Não são muitos, nem suficientes, mas são bons. Ajudam os interessados a compor um quadro amplo de situações cruzadas.

e o Brasil? Não existe?Olhando para o vetor contrário, Coutinho abriu seu texto, com frase de efeito áspera: "o Brasil não existe para o jornalismo português".

A frase aparentemente superficial complica, a rigor, algo bem mais profundo. Trata-se do movimento de suposta reconfiguração da imagem brasileira no estrangeiro, um movimento alegadamente em curso e no qual muitos de nós acreditamos. Coutinho aprontou na contramão de um consenso e o fez en passant, quase sem querer. Descontadas as questões de estilo, quis dizer que a nossa velha metrópole se interessa pouco pelo que acontece aqui. Em linhas gerais, nesse sentido, parece ter razão.

Como leitor constante de jornais franceses, italianos, alemães e espanhóis, ouso dizer que na grande imprensa desses países dá-se algo semelhante. O interesse por Brasil é episódico, quase sempre ancorado em coisas por assim dizer "popularescas" ou "grotescas": lantejoulas, faroeste, bang-bang, narcotráfico. Noutra chave, são perfis de figurões do mundo business, sugestões de investimento ou compilações insossas sobre a variação de preço de uma tal commodity. Ou então, são as bundas de sempre (perdoem a imagem assaz grosseira), nossas cálidas paisagens e os morros cariocas. Há de fato muito pouco de substantivo e genuíno nessas aproximações ligeiras. São apenas imagens-símbolo.

existir existimos, pero no muchoA "cara" do Brasil na grande imprensa europeia oscila atualmente entre esses pólos caricatos: a velha figura da nação festiva porém violenta convive agora com a sugestão (exagerada e contraditória) de uma economia robusta. No frigir dos ovos, continua organizada sobre imensas fantasias e folclores. "Fazer o quê?", dirão alguns. "O real é também o imaginário...". Sem dúvida...

perspectivas divergentesCuriosamente, na polêmica acesa por Coutinho, quem lhe objetou com força não foram os brazucas, mas sim uma portuguesa, Alexandra Lucas Coelho, correspondente em São Paulo do jornal lisboeta "Público": "Para escrever que 'o Brasil não existe para o jornalismo português', só fazendo de conta que o jornal 'Público' não existe", disse ela em uma carta enviada para a redação da mesma Folha de S. Paulo. Coelho considerou-se desprestigiada com as proposições do seu conterrâneo. Ela escreve sobre nós para os primos portugueses, e dá conta do recado com extrema dedicação e energia. O "Público", porém, está mais exceção do que para regra. Bem-vinda exceção.

0 comentários:

Postar um comentário

Cálculo de IMC

Calcule Aqui seu IMC. Peso: Kg Altura: m
End World © 2009 Template by:
DownLivre
▲ Topo