segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Hebe Camargo foi a avó maluca que todos gostaríamos de ter

Por Régis Tadeu

Neste exato momento, você já sabe que Hebe Camargo sábado passado, aos 83 anos, vitimada por um ataque cardíaco provavelmente derivado do câncer no peritônio, contra o qual ela lutava desde o início de 2010, morreu em casa porque se recusou a voltar ao hospital depois de ser internada várias vezes nos últimos tempos. Desconfio que ela não queria mais espalhar a sua agonia a quem acompanhou sua vida exuberante na hora de jorrar alegria, entusiasmo e até uma certa falta de noção muito engraçada.

É curioso que ela tenha ido embora deste mundo às vésperas de seu retorno ao SBT, onde trabalhou por quase 25 anos, e no mesmo período em que havia descoberto as virtudes das redes sociais e da tecnologia da internet — ela havia acabado de criar conta no Tweeter e seu próprio canal no YouTube. Não duvido que seria um troço bem divertido vê-la gravando vídeos para uma geração mais nova que a dela e mandando umas mensagens amalucadamente sinceras.

Não vou comentar a sacanagem que fizeram com ela na Rede TV. Quem muda de emprego está sujeito a se dar mal. Também não vou comentar as circunstâncias que a levaram a sair do SBT. Quem não está contente com seu trabalho tem o direito de ir para uma outra empresa em busca daquilo que julga ser justo para a sua carreira profissional. O que é pertinente neste momento é ressaltar algumas características que fizeram de Hebe Camargo um ícone da TV brasileira em todos os tempos.

Não dá para ignorar que ela esteve presente na primeira transmissão ao vivo da TV brasileira, na extinta TV Tupi, em 1950. Foi o início de uma relação com o telespectador que muitas vezes transcendeu os limites físicos. Tenho quase certeza de que o fato de não ter completado o segundo grau na escola e ter trabalhado como arrumadeira quando era muito jovem fez com que Hebe entendesse o quão importante era se comunicar com aqueles que eram ignorados pelas classes socioeconômicas mais elevadas. Foi esta facilidade em falar ao "povão" que a levou a apresentar o primeiro programa feminino da TV brasileira, em 1955 e a ter a sua própria atração dominical em 1966, na TV Record. Foi aí que ela encontrou o seu nicho e, por que não dizer, o seu mundo.

Esta relação de amor com seu público sofreu um forte abalo quando ela se meteu no mundo político. Pegou mal para ela quando resolveu apoiar explicitamente qualquer candidatura de Paulo Maluf, com quem veio a romper tempos depois. Mesmo assim, ela conseguiu manter um público fiel, cada vez menos numeroso com o passar do tempo, mas ainda assim grande o suficiente para lhe garantir espaço na TV. Perto da espontaneidade de Hebe, Oprah Winfrey parecia um robô com algumas juntas enferrujadas.

Hebe era tão doida — no bom sentido, claro — que até mesmo suas incursões como atriz eram divertidíssimas. Nunca vou esquecer dela como Cleópatra, deitada no palco, sem conter o riso mesmo depois que sua personagem estava morta, debaixo de uma saraivada de gags improvisadas pelo mais lunático comediante que já tivemos, o inigualável Ronald de Golias, no papel do imperador Júlio César.

Tentaram fazer com que Hebe retomasse sua carreia como cantora. Bobagem. Não era a dela. Até que ela foi uma garota afinada no passado, mas tentar montar um show para que ela cantasse seria o mesmo que pedir para que o Tony Bennett participasse de algum torneio de tênis de Wimbledon. O negócio dela era brilhar no palco de um estúdio de TV, lugar onde ela se sentia mais que em casa.

Nenhum marmanjo — eu incluso — vai entender completamente de que maneira seu programa dela falava à alma das mulheres, independente da idade. Talvez fosse o desejo secreto que a maioria das mulheres brasileiras tem em pertencer, nem que por alguns parcos minutos, a uma determinada "elite" de cunho conservador e tradicionalista. Eu arrisco a hipótese de que Hebe personificava aquele parente maluco e divertido, com muita grana, que todos nos gostaríamos de ter na família.

Esqueça qualquer análise que venha a ser feita da personalidade de Hebe Camargo. Assim como todas as mulheres, ela sempre foi e será algo indecifrável...

0 comentários:

Postar um comentário

Cálculo de IMC

Calcule Aqui seu IMC. Peso: Kg Altura: m
End World © 2009 Template by:
DownLivre
▲ Topo