quarta-feira, 18 de abril de 2012

O perigo está do lado de fora da pista



A frase do chefão da McLaren Martin Whitmarsh, de que o Brasil é mais perigoso que o Bahrein, nos deixa ofendidos pela parte que nos toca, mas os riscos a que se expõe a Fórmula 1 e seu milionário circo ambulante pelo mundo não é nenhuma novidade. A polêmica sobre a realização da prova deste domingo na nação do Golfo Pérsico, cancelada no ano passado em virtude de suas crises política e social, já funcionou como um sinal vermelho para os carros de F-1 no passado.

Os argentinos que o digam. Em 1973, em meio à truculência do regime militar e o do movimento peronista, uma bomba teria sido encontrada nos boxes e os comentários, na época, apontavam que era para explodir na largada, ao vivo, para o mundo inteiro ver pela televisão. Mesmo assim, os argentinos promoveram a prova, que continuou nos dois anos seguintes. Entretanto, em 1976, acabou cancelada, por motivos de segurança. Em 1977, a corrida voltou a ser disputada. Mas, em virtude da Guerra das Malvinas, houve nova interrupção em 1982.

Aliás, nossos vizinhos têm outros traumas, além das inúmeras glórias, quando falam de automobilismo. O pentacampeão Juan Manuel Fangio ficou sequestrado por dois dias durante uma prova em Cuba, no ano de 1958.

Mas a categoria máxima do automobilismo costuma encarar as crises nacionais, em nome de seus acordos milionários e por uma questão política. Dezenove dias depois dos atentados de 11 de setembro, com o país em pânico, foi realizado o GP dos EUA, em Indianápolis.

É a falta de segurança nas pistas quem costuma fazer os chefões da F-1 a se dobrarem diante da decisão de correr ou não em determinado lugar. O acidente envolvendo o francês Pierre Levegh, nas 24 Horas de Le Mans de 1955, considerada a maior tragédia do automobilismo – sua Mercedes voou em cima do público e cerca de 80 pessoas morreram, inclusive o piloto – é um destes casos. O trauma foi inevitável. Quatro provas da Fórmula 1 acabaram canceladas e a Suíça proibiu corridas no país.

E ao longo da história existem protestos menores, como o de Emerson Fittipaldi, que se negou a correr no circuito de rua de Montjuich Park, na Espanha, em 1975, porque os guard-rails estavam mal instalados – o então piloto da McLaren chegou a pedir desculpas aos patrocinadores. O brasileiro parecia pressentir o pior e não viu a Hill-Lola do alemão Rolf Stommelen decolar e matar cinco torcedores.

Em 2005, a F1 viveu uma situação patética nos Estados Unidos


Grid vazio

Em 19 de junho de 2005, a Fórmula 1 assistiu a uma de suas corridas mais estranhas da história e no templo sagrado do automobilismo. A Michelin detectou um problema nos pneus que fornecia à maioria das equipes e não se responsabilizou por um acidente em Indianápolis. Se ela não assumiria riscos, as escuderias também não. Porém, a corrida foi mantida e no fim da primeira volta, um a um os pilotos que equipavam seus carros com a marca francesa foram para os boxes. Apenas seis, com Pirelli, ficaram na pista. Michael Schumacher venceu e num dos poucos momentos de emoção da corrida, jogou para fora seu companheiro na Ferrari, o brasileiro Rubens Barrichello, que acabou na segunda colocação, à frente de duas Jordans e duas Minardis

Para Rubinho, os perigos na pista eram maiores que os externos. E deve ter sido isso que disse ao amigo Jenson Button após uma tentativa de assalto no trânsito de São Paulo, em 2010 – o carro em que estava o piloto inglês e seu pai foi cercado por bandidos armados, na região do Morumbi, mas conseguiram fugir graças á perícia do motorista, um policial acostumado a situações de risco. É por este motivo que o chefão da McLaren considera a violência urbana brasileira mais perigosa que a onda de protestos no Bahrein, que já matou mais de 70 pessoas no último ano.

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